Sobre presença e encontro: quando o cuidado começa pela pessoa
Talvez, antes de falar sobre formações, técnicas ou áreas de atuação, seja importante contar um pouco sobre a maneira como eu compreendo o cuidado.
Para mim, um processo terapêutico começa pelo encontro.
Começa quando existe espaço para que uma pessoa possa chegar como ela é — com aquilo que consegue dizer, com aquilo que ainda não sabe nomear, com seus silêncios, suas dúvidas, seus recursos e também com aquilo que, naquele momento, parece difícil demais para colocar em palavras.
Minha atuação é fundamentada na abordagem humanista, especialmente na Abordagem Centrada na Pessoa. Isso atravessa profundamente a forma como eu trabalho. Não parto da ideia de que existe um jeito certo de uma pessoa sentir, reagir, se comunicar ou viver um processo terapêutico. Também não acredito em uma prática feita para encaixar alguém em um modelo pronto.
Acredito em uma relação construída com escuta, respeito, presença e interesse genuíno pela pessoa que está ali. E talvez seja justamente por isso que Psicologia e Musicoterapia façam tanto sentido juntas na minha trajetória.
Nem sempre a fala é o primeiro caminho. E nem sempre ela precisa ser o único.
Às vezes uma música consegue se aproximar de algo que ainda não ganhou nome. Uma brincadeira pode contar muito sobre uma criança. Um som, um desenho, um gesto, uma escolha ou até um silêncio podem carregar significados importantes.
Isso não significa que todo atendimento precise ter música, instrumentos ou algum recurso expressivo. Significa apenas que eu gosto de trabalhar com a possibilidade de diferentes formas de expressão — e de estar atenta para perceber qual delas faz sentido para aquela pessoa, naquele momento.
Atendo mulheres adultas e crianças e tenho um carinho especial pelo trabalho com a infância e com crianças neurodivergentes, inclusive crianças que se comunicam de formas diferentes da fala. Esse trabalho me lembra constantemente de uma coisa que considero muito importante: comunicação é muito maior do que linguagem verbal.
Quando uma criança toca um instrumento de determinada maneira, repete uma música, recusa uma proposta, inventa uma regra, busca proximidade ou simplesmente precisa observar antes de participar, existe ali uma forma de estar em relação. E, para mim, compreender isso é muito mais interessante do que tentar fazer com que ela corresponda rapidamente ao que alguém espera dela.
Com adultos, essa mesma ideia aparece de outras formas. Muitas vezes chegamos à terapia acostumados a explicar tudo, racionalizar tudo, encontrar a palavra certa para tudo — quando, na verdade, algumas experiências precisam primeiro ser sentidas, compreendidas e acolhidas.
Meu papel não é entregar uma versão pronta sobre quem alguém deveria ser. É acompanhar, fazer perguntas, oferecer presença, construir um espaço suficientemente seguro para que aquela pessoa possa se ouvir também. E, quando fizer sentido, trazer recursos que ampliem esse processo.
Tenho muito interesse pela ludoterapia centrada na pessoa e pelos recursos expressivos justamente porque eles dialogam com essa maneira de compreender o cuidado: uma prática em que brincar, criar, experimentar e descobrir também podem ser formas legítimas de elaboração. Ao longo da minha formação e da minha prática, fui entendendo cada vez mais que quero construir um trabalho no qual a técnica exista, claro, mas não venha antes da pessoa.
Porque duas pessoas podem chegar com a mesma queixa e precisar de processos completamente diferentes. Duas crianças com o mesmo diagnóstico continuam sendo duas crianças diferentes. Afinal, duas histórias nunca são iguais.
É desse cuidado que eu quero participar: um cuidado sensível às diferenças, que não tenha pressa de definir antes de conhecer e que considere que cada pessoa possui maneiras próprias de se relacionar consigo, com o outro e com o mundo.
Esse espaço também nasce desse desejo. Quero usar este blog para falar um pouco mais sobre Psicologia, Musicoterapia, abordagem humanista, infância, neurodivergência, recursos expressivos e outros temas que atravessam o meu trabalho — mas também para apresentar com mais calma o caminho que me trouxe até aqui.
Então, se você chegou agora, te dou às boas-vindas.
Esse é um pouco do meu jeito de compreender o cuidado.
E acho que é um bom lugar para começarmos.